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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Gravura em metal: de 2000 a 2003, entre a ponta seca e a água forte.

No mês de fevereiro de 2010, em virtude do mestrado em poéticas visuais na Universidade de São Paulo, com a orientação do professor Cláudio Mubarac, devo intensificar minhas atividades de gravura em metal, hoje, um pouco adormecidas. Utilizo a xilogravura como uma forma de criar impactos e sensações (sonhos) através da linha livre e branca rasgada sobre a madeira de fio ou de topo, em pequeno formato, utilizando goivas e formões de vários calibres. Mas o metal, pela sua peculiaridade e luz, sempre, será a porta de entrada para ao mundo das ilusões, das forças cinzentas da memória e da observação através de retratos, paisagens - montanhas, criaturas e cinema, feitas pela ponta seca e a água forte, matérias antigas e originais para o desenhista. Assim, vou utilizar de algum modo a xilogravura (a simplicidade da incisão na madeira, sobre o metal) que é, por natureza, uma atividade complexa que envolve tempo, prensa, papel, tintas, instrumentos, ateliê, cadernos de desenho, incisão direta, cobre,e outros metais encontrados na rua ou em lojas de materiais de construção.















segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fundo Azul.

Xilogravuras pequenas e coloridas (na forma de um diptíco chamado Jonas e o Pálacio no Fundo do Mar) estão participando do projeto "Compre uma Gravura", idealizado pelo curador Eduardo besen na Galeria Gravura Brasileira. Para mais informações, acessem o site:


www.gravurabrasileira.com/

www.cantogravura.com.br/























domingo, 20 de dezembro de 2009

Espelhos


Xilogravuras feitas para a edição especial de Natal, com tiragem de 10 exemplares na Galeria Mezanino. Para entrar no site da galeria e ter acesso a trabalhos de entalhe e pintura, entre outros artistas, por favor acessem:

www.galeriamezanino.com/

domingo, 6 de dezembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Votem para residência artística na Terra do Una (MG): www.terrauna.org.br

Apresento aqui neste blog a proposta, (via imagens e textos) do artista Samuel Ornelas para a Residência artística na Terra do Una (MG). Seus trabalhos são feitos utilizando materiais simples como terra, areia, pedras e carvão vegetal, buscando a sombra das árvores e outros elementos encontrados na rua. O trabalho como processo necessita, cada vez mais, estar próximo da natureza. Por favor, leiam os textos logo abaixo do post e votem, para que o artista possa desfrutar desta experiência de desenho e pintura utilizando um ateliê a céu aberto na Serra da Mantiqueira.
Projeto VESTÍGIOS
O trabalho consiste em criar interferências efêmeras em diálogo com determinados ambientes. Aproveita-se a imagem da sombra projetada como representação de uma presença de um determinado tempo em um espaço. Como um vestígio, presente/ausente, existente e por ora desaparecido. Por meio da reutilização de materiais já encontrados nos espaços, como por exemplo, areia, pedras e o uso do carvão vegetal, o intuito deste trabalho é sensibilizar que tudo está em constante movimento e transformação. São materiais que o próprio tempo é capaz de eliminar com ajuda de fenômenos naturais como a chuva, o vento e o sol, atuando de maneira a deixar suas marcas. A mudança e a transformação social estão relacionadas a união e a relação entre pessoas e o espaço que convivem. Propor novas interpretações, pode alterar a nossa percepção diária e valores já pré-estabelecidos.
O Projeto do Artista
O projeto está aberto a todo o instante a contar com aparticipação dos artistas residentes, com o público do Ponto de Cultura e Sustentabilidade e com qualquer pessoa afim, pois, de certa forma, necessita dessa interação para a construção das imagens.
Oficina Interativa Usando como referência os trabalhos doartista inglês Andy Goldsworthy, a proposta é que em determinado momento as pessoas interessadas se unam para criarem um ou mais objetos ou imagens usando somente recursos encontrados na paisagem.
Vivência Mostra Conversa Compartilhar a experiência já sofrida em outros lugares com o Projeto VESTÍGIOS com os novos trabalhos realizados na Ecovila Terra UNA.
Os trabalhos serão mostrados em uma apresentação digital e depois comentados por todos os participantes e pessoas comuns dos arredores. O projeto VESTÍGIOS vem sendo desenvolvido desde maio de 2007 nas cidades de São Paulo, Santos, São Vicente, Praia Grande, Paranapiacaba e Araquari (SC). Foi feito um vídeo e um projeto editorial com entrevistas de artistas importantes como Fabrício Lopez, Ulysses Bôscolo e ReginaSilveira.
CURRICULUM SAMUEL ORNELAS Santos SP 1986.
Trabalha e vive como artista plástico na cidade de São Paulo. Desde janeiro de 2008 é integrante do Atelier Piratininga,um atelier gerido por artistas com o propósito de compartilharespaço de trabalho, informação, idéias, projetos artísticos e educativos. Atualmente trabalha com desenho,gravura, fotografia e intervenção urbana.
Formado em Design Gráfico no Senac.
Realizou o Evento Terceiras Impressões: INTERAÇOES URBANAS junto a Ernesto Bonato no CentroUniversitário Senac - Santo Amaro.
Participou da Ação no Centro Histórico em Santos pela Virada Cultural Paulista.
Coordenou a Oficina de Xilogravura no CASA ABERTA SENAC.
Oficineiro do Projeto RISCO pelo CircuitoSesc de Artes.
Coordenou com Pedro Pessoa a Oficina POESIA URBANA no Atelier Piratininga.
Coordenou com Eduardo Ver e Pedro Pessoa a Oficina BARRACÃO no Instituto Sidarta. Coordenou com Ulysses Bôscolo a Oficina CALIBRE na Casa da Palavra Mário de Andrade. Participou de exposições coletivas de ilustração, desenho e gravura.
Viajou para São Francisco Xavier, São Bento do Sapucaí, e para a Bolívia e o Peru onde realizou diversos trabalhos coletivos e individuais.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vestígios - imagens para o projeto Ecovila Terra do Una, em MG.






















Ecovila Terra do Una: projeto Vestígios, de Samuel Ornelas para a bolsa residência em MG.












Interações Florestais - Residência Artística Terra UNA (Serra da Mantiqueira/MG)
O prêmio Interações Florestais - Residência Artística Terra UNA 2010 recebe inscrições até 03/12/09 por meio do site www.terrauna.org.br. Aos artistas premiados são oferecidas residências artísticas na Ecovila Terra UNA, em Liberdade (MG) - na Serra da Mantiqueira, além de atividades no Ponto de Cultura e Sustentabilidade na mesma cidade. A idéia é de promover a interação dos artistas com a floresta, com o ambiente rural e com a população e os artistas locais. É a segunda edição do prêmio. A bolsa oferecida é de R$ 1.500,00, para um mês de estadia na Ecovila. 10 artistas são selecionados em um processo em que os próprios inscritos escolhem os premiados. Três artistas são convidados para acompanhar esse processo de maneira critica. Dois artistas são escolhidos pela Terra UNA. A primeira edição do prêmio contou com mais de 150 artistas inscritos. A proposta do artista Samuel Ornelas, membro do ateliê Piratininga, é trabalhar essencialmente com desenho - sombras, xilogravuras, fotografias e vídeos, buscando uma interação com a natureza e com o tempo na cidade de São Paulo e em diversas outras localidades, como Paranapiacaba, Santos (na região Portuária do Valongo e no antigo Engenho dos Erasmos), na Praia Grande, São Vicente, Pico do Jaraguá e na Serra da Cantareira (caminhando pela Estrada da Pedra Grande dentro do Horto Florestal). Segue logo abaixo, um texto que desenvolvi para o TCC de sua formatura em Design Gráfico pelo Senac, em 2008, sobre trabalhos utilizando carvão vegetal, terra, areia e pedras.

A Sombra na Sargeta: o prêmio para a poça d`Água
O carvão; por ser a forma mais simples de desenho é por ventura a mais efêmera têmpera que o tempo pôde forjar no coração religioso, nos destinos e sentimentos do artista há pelo menos 5.000 anos. O carvão (como pigmento vegetal) é a base dos sonhos naturais para representar de modo simples, o “espírito móvel da natureza” pela sombra. Grãos são dissolvidos, esmagados e por vezes, misturados com água ou óleo durante a ação única do desenho pela frotagem; entre outros procedimentos naturais usados por Samuel Ornelas para criar e identificar figuras floridas mentalmente no chão, tal qual, um aborígine pode conceber os elementos movediços do universo, ou seja, a luz e a escuridão, que ao longo de uma breve existência, habitam a carne pelos deslocamentos do sol. Formando um diagrama inicial de estruturas inclinadas pelo astro como estudos, como relógios precisos com origens típicas, talvez, na preservação de uma identidade, contida na orla, de sentimentos transportados para o ato de desenhar, se transformam bruscamente em ações de escopo, de registros que invariavelmente são assaltados por muitas dúvidas. Dúvidas essas, típicas de quem quer estar mais próximo (eu posso arriscar) de uma “religião perdida”. É um pouco forte o que acabo de mencionar. Mas, algumas queixas sobre “visibilidade” no íntimo estão em plena erupção pela sua juventude e acredito que podem ser associadas a fragilidade de conceitos novos e velhos, despertados na faculdade e que depois, foram postos em xeque ao relento, através de ações solitárias na rua: a paisagem aberta de sua cidade natal, irradiando salinidade no corpo após um banho de estrelas ou pela saudade de sua família. Essas recordações, no contato com o pigmento, despertam para uma possibilidade de trabalho transcendente, pois os círculos familiares duradouros ajudam a contrapor uma poesia calcada no balanço de uma irritante brevidade. Esta imaginação, ou melhor, este desenho é preservado principalmente por registros fotográficos. Temos neste afastamento temporário do caiçara para as expedições regulares de estudo ao planalto, a tentativa de se enquadrar nas estranhas dimensões que fazem com que os dedos, os olhos, o corpo e a mente de modo geral, por trabalho voluntário, por trabalho “exposto aos elementos naturais” se transformem nas ferramentas adequadas para representar o tempo, como ponteiros especiais presentes na matéria comum, coberta de pó. Na tentativa de medir como amadurecimento de suas idéias as sombras dos elementos beijados pela luz solar; uma viagem, uma dimensão pode se processar lentamente em seu corpo na preparação de um “desenho” em torno do poder muscular das nuvens, do clima, dos sóis que cobrem as cidades do litoral como a Praia Grande. Essa “visibilidade” que eu mencionei de modo vago são nada mais do que especulações de caráter paterno, auto – retratos, imitações de formas humanas identificadas com as ondas que varrem a areia sombria dos castelos construídos e diluídos nas línguas negras próximos ao mar. Detritos são contornados a carvão e galhos, casas, pórticos de construções abandonadas; lugares históricos; lugares passageiros; lugares surpreendidos pelo dia e pela noite estão nos contos de fadas com finais campestres e urbanos; resumidos na sarjeta ao lado da poça d´água. Podem ser lidos como manchas - poemas apagados na maré, acordando o molusco, evocando na quebra inaudível de sua concha o fantasma de Anchieta perdendo-se nas memórias escritas das paredes de um mosteiro, fazendo com que esses trabalhos fotografados, ganhem algum sentido além de meros registros, por vezes (e devemos ter isso em mente) de alguém “extravagante”. Musgos: a acidez da cal e do cimento. Rachaduras: verrumas que crescem nas órbitas das superfícies nuas fazem parte de pequenas atitudes, pequenas aberturas de luz como alfinetes que são, no instante fugitivo, alvo de interesse de um jovem artista cheirando o mundo. É claro que noto neste percurso, certa dependência do meio que pode legitimá-lo, como artista. A atmosfera destes trabalhos realizados com o corpo, com a memória da natureza, torna-se refém, ao menos em parte, do registro digital e toda a produção que cerca um aparato destinado a provar na grade curricular, intenções honestas. Os seus olhos estão naufragados, estão adormecidos até para este outro lado, avesso aos deslocamentos de conceitos produzidos de ante mão para laçar alguma tese, na observação e intuição palpitadas na (inex)experiência no tempo, no princípio da sobrevivência – curiosidade e na descoberta de uma “habilidade”. Algo muito antigo, algo muito devoto, associado á soluções tecnológicas paleolíticas que agora completam e afloram em sua formação. É sutil este estado de espírito e eu identifico, em vários colegas, esta inclinação. O trabalho do Samuel Ornelas pode responder ao desejo (in)útil de querer se inserir no escuro; nas substâncias espaciais e espirituais da sombra que é feita nos relógios do sol como crescimento e recuo da natureza pela luz. Uma natureza que se move silenciosa no poente, despertando-o para a realidade. Mas só percebemos o trabalho e a comunhão que o Samuel faz com o chão e com outras quedas pelas quais o homem surge do pó, ironicamente (digo pela segunda vez) através de registros fotográficos. É um conceito de nossa época registrar aquilo que for pela fotografia como se este registro demonstrasse a medida e o calor adequado para colocar, longe da obra, na tela do computador, os esforços do artista para manter-se conectado com as forças do cosmo, com as forças que movem uma identidade pela dimensão do mundo. Uma arquitetura de pesos desiguais encontra-se quando olharmos para os trabalhos através das fotografias. Algo se reduz. O certo (e isso se mostra de modo ridículo, visto por uma corrente profissional) seria não mostrar nada e não registrar nada, mas apenas sentir (se for possível) uma verdade que pelos olhos pode ser vista, talvez mencionada como “trabalho”, com muito cuidado. O corpo deve guardar as cicatrizes das exposições ao sol, a chuva, aos mistérios que desgastam rapidamente a estrutura em sua lavoura, colhendo o tempo. Uma verdadeira performance, já que a resistência da carne envelhece rapidamente como uma folha. A utopia destes argumentos me leva em direção para uma força, para um sonho, para o desejo de buscar e ver algum dia um artista; alguém que pode livremente realizar a sua viagem, realizar o seu desenho por prazer e identidade, impulsionado apenas pela alegria de mover o “estado natural”, o vigor, pelas quatro estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Embebido na beleza de sua saúde e de sua força cósmica abundante, em harmonia com a violência que transforma a vida: o comer, o beber e o construir; o nascimento e a morte, o artista recebe como prêmio os estímulos, os pensamentos das medidas sagradas descobertas nesta atenção especial “em – si” como uma graça. Tal atitude é relacionada ao aparecimento na sociedade, dos profetas. Outros módulos poéticos são colocados trêmulos diante da possibilidade total da poesia em conjunto com outras fraturas psíquicas que servem para condicionar no corpo certa energia mística, presente nos elementos comuns, até mesmo no asfalto. Estas energias apresentam para ele a realidade, em diversas etapas de sua vida. Posso comparar essa utopia a algo que um dia passou por aqui, talvez a milhares de anos atrás, exatamente nas incisões realizadas em petroglifos que estão espalhados por toda a América do Sul e também, igualmente em muitos lugares telúricos da Europa, Ásia e África; deixadas por civilizações que marcaram nas rochas um “espelho” identificado com as estrelas... com algo ligado a crenças religiosas difíceis de descrever e que, em nada tem a ver com os dogmas impostos hoje em dia. Penso em certo instante na enorme Pedra do Ingá, na Paraíba: um mapa duro das emoções condicionadas pelo céu, uma espécie de o árbitro elementar das coisas vivas, sagradas, amparadas pela terra e a relação de seu corpo no espaço. Uma resistência inteligente ao choque. Uma resposta, no interior do Brasil, as forças transformadoras do mar? Tal silêncio emitido pela Pedra a beira do rio Ingá me mostrou um postulado, uma abertura para um tipo de “respiração” que adquire tempos diferenciados com as esferas habituais que, de algum jeito, cantamos como arte. As incisões e outras manifestações estéticas estão situadas nos padrões de comportamento das órbitas oculares atiçadas nas palpitações de uma origem. Mas, que Origem pode ser esta? Uma inserção, pelo toque das mãos na geologia das formas através do real e principalmente, através da possibilidade de “fender” esta realidade na curvatura natural do espaço? Os desenhos nas rochas fazem parte de uma ruptura simbolizando o nascimento e a morte? Devemos enfim observar o artista objetivamente desta forma? Uma árvore em toda a sua beleza de ser apenas, uma árvore? Consciente, o artista, sob certos aspectos deve almejar esta inocência aparente e manter-se saudável e aberto (sei que é difícil) aos estímulos aduaneiros do cosmo, que estão, desde o nascimento, se desenvolvendo e consumindo o corpo feito o sal ou o açúcar primordial depositados nas células com cuidado. Parece que a gravura, em relação ao desenho e a pintura (sem distingui-las como categorias especiais, mas apenas, como um conjunto uno que levou o ser humano a representar a “naturalidade das coisas”) cumpre um papel importante de fazer o mundo, na matriz, por linhas de força. Elas se conectam de dentro para fora com alcance direto, nos centros nervosos que se solidificam, como imagem, como galáxias no saber. A fotografia cumpre este papel inequívoco de colocar o público ao seu lado em uma determinada experiência como essência de sua criação? Será que todos devem se aproximar deste feito ou isso é proposto por uma ordem externa, avessa a sua vontade. Afinal, como artistas, temos sempre que justificar o cultivo do tempo dentro de um ateliê? Até mesmo do lado de fora, respirando o processo inquietante de estar vivo, temos que justificar certo ócio, necessário ao pensamento criativo? Mas que narcisismo é esse típico dos artistas contemporâneos de quererem dar importância a tudo que fazem, amparados pela “produção e arquitetura teatral” do meio fotográfico? Isso é um perigo e eu vejo com certa intolerância este registro, que facilmente pode ser manipulado por um programa de computação gráfica. Acredito que os arquivos das memórias no Samuel estão associadas com alguma dificuldade para se desprender das coisas comuns, feito uma semente. Quer se livrar dos tempos artificiais para estar convicto de uma presença ao invés de uma manipulação que não condiz a suas ações delicadas de força no mundo real. Mas o artista socialmente precisa existir? Veja; suas obras estão destinadas ao sucesso da brevidade. Elas morrem com a chuva e somem com a onda. Formam a poesia antiga pautada pelos anônimos que cantam para as florestas. Então, é de se pensar que a fotografia, nada mais, nada menos justifica certas ações que se enquadram em alguma profissão corrente, dentro do eixo político dos salários? A frotagem de sua sombra a carvão é feita para experimentar o mundo duro do concreto e do asfalto das grandes cidades, algo complexo para se perceber apenas pelo papel fotográfico. Mesmo assim, tal comunicação existe. Mas é preciso estar ao vivo nesta performance. Uma simplicidade autêntica, como a inteligência primata soube envolver as formas místicas do corpo em arte, em movimento tal qual a irmã celeste, que estabelece uma herança no processo para caminhar e observar o céu, feito um telescópio. A fotografia, após a revelação transforma-se muitas vezes em um mundo virtual por que, mostra para o público, determinado instante no passado, determinada fonte de luz parecida com estrelas muito distantes, emitindo um brilho que já não existe mais. A sombra é a parcela negra da divida do homem para com Deus assim que deixou o Éden. Além de ter de lavrar e buscar pelo “esforço” o seu próprio alimento a alma ficou em divida com a luz. Por isso, assim que nasce o sol nasce a sombra. Das raízes dos pés até as plantas dos cabelos percebemos a sombra abraçando o corpo puxando-nos até o chão, martelando, instruindo na consciência e nos materiais de desenho certa poesia na queda; certa irmandade com a lápide. As distâncias pela fotografia são amortecidas neste registro: um processo de escolha mental e corporal ao pó como forma de trabalho que na verdade, teremos acesso restrito. A foto, preservada e disseminada pela tecnologia digital é estranha ao carvão, que pode ser apagado simplesmente pela chuva. Temos de um lado a facilidade e a permanência deste documento temporal participando da vida enquanto do outro, a própria vida primitiva como combustível a uma pulverização do todo. Uma eleição, que se assemelha a postura de um monge budista soprando com desprendimento uma enorme Mandala, trabalhada grão por grão durante meses a fio, esculpindo a sua forma em cada detalhe com o pólen das flores. Eis que na preservação do seu feito certa necessidade, é encontrada entre as pedras; entre o espírito dos homens das cavernas; entre as pétalas e suas cores. A natureza do artista se move de modo tão perturbador como os raios do sol sobre a pele, trabalhando um roteiro de viagem.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Forro do Armazém: texto sobre a exposição no Ateliê Funilaria e Pintura.

















O Forro do Armazém
Sobre xilogravura no Ateliê Funilaria e Pintura.

1. A xilogravura é a arte do sólido. É a arte do encontro com a matéria-corte no tabuleiro da estampa. Uma matemática, uma biologia nos labirintos onde surgem as imagens. É a oportunidade de moldar tudo no equilíbrio dos negros e dos brancos. Durante a travessia, a madeira faz o artista perceber o espaço do seu corpo e da sua mente no livro-matriz profundamente gravado. O corte é um barco transportando o espírito do gravador até a ilha dos mortos. Ali ele vive entre camadas e montanhas que um dia, conduziram para a árvore uma energia vital. Participa de sua paisagem cheirando épocas anteriores ao seu nascimento. Rompe pelo impacto de luz os lugares onde os espíritos estão adormecidos. Por que a matriz de madeira é uma caixa contendo inúmeras criaturas dormentes. As passagens das estações são fixadas nas fibras como um arco íris castanho no mundo onde a água e os sais minerais, produzem a sua lavoura. Os artistas entalhadores se alimentam do tempo. O tempo nasce irradiando as suas manchas. Nasce na aguada para ganhar o ar assim que a madeira é cortada e dividida em tábuas. O que observamos nos veios como manchas são na verdade, aquarelas que a seiva e os sais produziram na qualidade do tempo. O tempo é um hospedeiro nos ombros de Merlin observando as árvores crescerem em busca da luz na atmosfera, construindo um delicado abraço na copa, administrando os jogos variáveis das formas geométricas. O tempo é a fonte de um verdadeiro quebra-cabeça que divide a claridade.

2. O tempo é o vento? O tempo é o dia e a noite ou envelhecimento da pele sob o sol? Percebemos a sua passagem nas coisas vivas. A caricia das folhas na copa pelo vento-tempo é o pedido para o pouso deste viajante invisível, que está no nascimento e na morte dos ângulos da matriz.

3. Na árvore existe o peso, mas um peso que só os pássaros estão acostumados a lidar. O gravador busca isso ao realizar o trabalho de entalhe, mesmo que sem querer. Busca o vôo da certeza num veio ou uma panorâmica da imagem submersa nas fibras, observando o dorso volumoso e prateado de um peixe na visão fantástica de um pescador. Busca o peso do tempo. A realização do desbaste é a uma espécie antiga de tempo-movimento em ondas de gravidade. A mesma força que balança os galhos são como bandeiras nas mãos dos soldados na invasão de um castelo. Os desbastes, as pancadas, o resultado desta força são escamas, folhas, pêlos, grãos, manchas, mandíbulas, algo em processo agindo em conjunto na superfície por agressividade e beleza, que consomem uma estrutura por mordidas. Difícil definir. Penso na ação. Penso na ossada deixada por esta ação. A fome pelo ventre das coisas é momentaneamente saciada.

4. Nas árvores muitos ninhos caem com a passagem de uma tempestade. O vento quebra os galhos abrindo varandas para os cupins enquanto que as raízes, entre canos e dormentes, procuram os mortos no solo destroçando as calçadas. As árvores querem andar dentro de suas baias de concreto. Tombam. E as pessoas se assustam com a tentativa após tropeçarem! Um mundo de sonhos está no modo de expressar a cidade de São Paulo pela xilogravura (a arte de convergir o tempo em formas). Os ventos (um dos agentes do Sudeste) animam as árvores e as árvores produzem o registro do tempo. Parece que tudo é sentido na vibração de uma máquina bem estranha. Uma locomotiva cujo destino e itinerário é um segredo guardado pelo maquinista: o sol. Ventos, seivas, veios, vidas. As árvores são movidas por energia eólica?
Que tecnologia contemporânea! No ateliê os artistas agem neste mesmo espírito, fixando as formas na estampa (a sua viagem pelo mundo em fragmentos). Como o pintor, que quer as cores dos elementos vivos, o corte é o movimento do tempo no homem. Isso é muito importante. De fato, pode causar espanto aos fantasmas. Na xilogravura a cor branca funciona como a soma de todas as outras cores do espectro, traduzindo para a realidade a visão dos vivos e dos mortos. Durante a impressão da matriz, um reino passa pelo outro espremendo nas fendas.

5. O tronco e a sua espessura são os responsáveis pelas peças do jogo. O tempo reside no tronco. Muitas dessas peças não se encaixem no tabuleiro oferecido pelo acaso no nascimento da imagem. Nós, caminhos carcomidos pelas témites, buracos e ninhos de formigas, besouros, lagartas e pulgões, seres tão pequenos quanto poderosos consomem as paredes deste templo. A estrutura da árvore converge para uma fantástica fábrica de contos e batalhas noturnas ressuscitadas pelos artistas, em tábuas e discos. O tamanho da imagem na xilogravura é oferecido como passagem para a história da espécie.

6. Os instrumentos, a bancada de trabalho constantemente carcomida por cicatrizes produzidas pelos dentes do entalhador, são lembranças atuais do esforço em quebrar a realidade. As mãos puxam uma rede invisível onde a imagem é prisioneira das primeiras ilusões. O pulso recebe sua dose diária de calos, uma maneira toda especial de sentir a raspagem da pele sobre as farpas, sobre os corpos de reis e rainhas nos canyons brancos e pretos da gráfica. A lâmina abre fendas como se fosse (e na verdade é) a própria luz. Neste jogo de xadrez a abertura é a ponta de um longo chicote que se ramifica em estradas, rios e cachoeiras livres nas bordas. Revoada.

7. Em pé, sentado diante da prancha ou de bruços, meio que preguiçoso, desajeitado, cortando a cor como a tenaz de um caranguejo no mangue separando o ouro da lama, o artista está suspenso entre os elementos dos sonhos e da paisagem (memórias e alucinações, não importa) passando como uma nuvem sobre o seu corpo, produzindo a dúvida, aceitando a sombra na beleza do maciço. Aproximando-se do limite entre as formas oferecidas pela matriz, o gravador vê e analisa as incisões. Acredita na união do passado com o futuro neste estreito generoso, onde uma efígie abre os olhos petrificando-o no tempo. Não resta dúvida: a carne da madeira torna-se pedra com o tempo. O gravador é um soldado em busca do Graal entre as coisas.

8. No Armazém eu encontro o mundo petrificado, ou seja, o lado de dentro de um antigo templo chinês onde as pedras gravadas eram organizadas para a frotagem com o carvão. Simples: pigmento, papel fino e força. Eram as gravuras nas pedras as primeiras tentativas de se transmitir uma história, uma imagem, um poema para o outro como destino divino. A caligrafia exigia força e delicadeza no cinzel. Depois veio a madeira que poderia ser consumida pelo fogo. Acho que esta maneira da imagem morrer encantou muitos artistas por que, a pedra, se pensarmos bem, é algo para a eternidade. Nunca morre e muito menos adormece. Mas o aço cantou melhor nesta possibilidade da matriz ser consumida em vida (como a árvore nos elementos naturais). Não faz mal. A xilogravura nasceu no berço chinês e veio para cá, como sementes transportadas nas mãos de um agricultor, de um continente ao outro. Somos chineses? Somos árabes ou europeus? Africanos? Não sei e fico imaginando que, ao realizar uma técnica artística tão antiga que remonta a linguagem como destino, se devemos dizer o país de origem. Ora, é o saber humano que passa como tecnologia, visão e invenção de instrumentos usados para abrir a paisagem, abrir a mente entre outras coisas, em tantos lugares sem nome ou com nome que, aparentemente, é o que importa nesta relação primeira com o mundo. Algo sem fronteiras. Algo que todos pudéssemos ver e aproveitar sem rótulos geográficos. Mas também, fico pensando se isso não seria como uma flor sem cor. A imagem é o lugar. O lugar é a arte-legião. O vento Norte ou o vento Sul. Sei lá! Uma espécie de abandono e conquista do saber no tempo. Mas não é assim que as coisas acontecem. Há o outro lado que a incisão confere, uma espécie de identidade, uma relação forte com o lugar para o artista. No Ateliê Funilaria e Pintura, as matrizes parecem ter sido colocadas por soldados que largaram momentaneamente as suas armaduras no estábulo. Cada figura um país. Cada animal ou planta, o brasão de sua família. Cada miniatura, a fôrma de um anel usado pelo aprendiz. A arte do encontro com o mundo visível é transmitida pela erosão destas armaduras-madeiras, uma espécie de mensagem na superfície castanha muito próxima da textura do couro. Os relevos são a visão de sua própria história, um mapa emotivo dos hemisférios do mundo. Quem ali não acredita nesses hemisférios? De onde eles surgem?

9. Estão gravados nas matrizes do Armazém os espaços que cada um conquistou para si no silêncio da vida em cativeiro por que o artesão é prisioneiro do seu amor pela lasca e pela vontade de estar no ateliê, costurando a sua cela. Nestas paredes onde antes eram penduradas mercadorias, estão os fósseis do tempo contemporâneo: as placas de um rinoceronte da Índia ou as celas rústicas, desenhadas para montar os dragões que nos visitam diariamente pelo humor. Tudo é possível e variado como o fractal das orquídeas que nascem no alto das árvores. Quem atinge as pétalas são os pássaros.

Para Biba Rigo, um passarinho sempre presente.

Ulysses Bôscolo, tarde de 17 de novembro de 2009.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

The Faces: exposição do acervo da Galeria Mezanino em anexo a individual do fotógrafo Daniel Malva.

Nesta exposição, devo mostrar dois ou três auto-retratos pequenos. A mostra abre nesta quarta dia 4 de novembro das 17h às 22h. A Galeria mezanino fica na rua Haddock Lobo 1.151/fundos.